quinta-feira, novembro 08, 2012

Fragmentos de uma verdade
III
- É só uma febre, vai passar.
Disse ela para si mesma.
Dessas febres que surgem em noites de tempestade;
Dessas que pelo menos um vez na vida todos passam,
Era acometida a pobre moça desse mal que a atormentava.
Nenhum remédio da Botica trouxe a cura para esse mal;
Nenhum chá antigo também.
- É que essa febre, respondia sua razão, não se cura com qualquer remédio.
Isso é febre de amor e só há um jeito de se curar:
com um outro amor...
Patrícia Prado
Fragmento de uma verdade
VI

O mundo. A terra. A vida.
No princípio, sem forma e vazia, mas através de uma palavra,
de um único ato, tudo que se vê veio a existir.

O mundo. A terra. A morte.
E no fim, toda a forma perfeita e bela se acabará através do mesmo ato,
usando a mesma arma gramatical.

Nos lábios que proferem vida há também a morte. O paradoxo.
Vida e morte habitando no mesmo espaço, no mesmo corpo, na mesma mente.
Irmãs, nascidas em tempos diferentes, desejada e indesejada caminham juntas, ~
mesmo que não se perceba, mesmo que não se queira ver.

Para que haja vida é preciso que exista a morte.
A semente só existe porque em algum momento ela fora fruto.
O fruto só existe porque um dia submeteu-se a posição de semente e
pacientemente aprendeu a desenvolver.
O ciclo. A vida.

Assim, como os seres vivem e morrem as palavras também se vão, se fecham, morrem.
Palavras são como sementes lançadas em todo tipo de campo.
Algumas se permite nascer, outras tentam viver, algumas morrem.
O ciclo natural da vida semiótica.

Eis o final de nossas palavras.
A tentativa de uma construção mais que semântica revelou ao final
que palavras são signos mágicos e como alquimistas tentamos fazê-las gerar
mais do que poderiam para esse tempo e elas, obedientes, seguiram por um certo tempo
nosso feitiço mas, poderosas se desprenderam rapidamente do emaranhado confuso
que estávamos a fazer e preferiram voar para outras matas, para outros desertos.

Com a sabedoria de quem esteve presente na criação de tudo, as palavras assim se ausentam
nesse instante. Partem apenas para nos dar a chance
de viver um instante a mais de nossas vidas distantes e distintas.

Patrícia Prado

quarta-feira, novembro 07, 2012

Eterno Combate


Logos e Eros se duelam
Quem vencerá ao final ?
Sangue, suor e lágrimas
Mistura de elementos divinos
que revelam o lado cruel desse embate

Mas porque lutar? pergunta docemente Eros
Porque não se entregar e admitir que nesse combate
Não existirá vencido ou vencedor?

Logos reflete...
Não, Não é verdade o que Eros está a dizer
É apenas mais uma de suas manobras manipuladoras
Afim de capturar, de seduzir, de escravizar
Aquele que não quer ser preso
Pelas doces algemas da paixão

Interminável combate entre Logos e Eros
Quem vencerá ao final?
Eros sorri, ele não desistirá tão facilmente
Interminável combate entre a razão e o coração

Patrícia Prado

No olho do furacão


Parar. Eis o movimento que somos convidados a fazer.
A razão dita a norma e as palavras se silenciam.
Nada muito fácil de ser fazer. Uma atitude nada simples pois muitas palavras foram libertadas por mim e por você e agora? Como não ouvi-las?
No olho do furacão, no centro da tormenta, no meio da não paz.
Eu me encontro nesse estágio, nesse lugar outrora não imaginado, nunca antes visitado e a quem devo culpar por ter chegado aqui? A você? A mim? Ao destino? Aos deuses ou aos demônios?
Não. Não há culpados. Não há vítimas. Há apenas duas pessoas que, talvez por distração, se viram e sem intenção se olharam de forma diferente. Eis o que pode se tornar a força de uma atração, de um desejo.
Mas o tempo, guardião de toda sabedoria e saídas, pode ser a solução para o fim desse tormento. Deixemos que ele nos guie e enquanto isso façamos um movimento contrário. Um movimento que nos leve de encontro ao não abraço, ao não toque, ao silêncio; até que o furacao perca sua força e estejamos em um ponto mais seguro onde não haja medo.


Patrícia Prado

A palavra certa


Sinto que há um abandono dentro de mim.
Um abandono que tem cheiro de morte
Provocada pela ausência.

Sinto que há um movimento maior dentro de mim.
Um movimento linear não mais circular
Que leva-me, talvez, de encontro a um sentimento de libertação.

Sinto que há um adeus surgindo.
Um adeus não programado, não esperado, mas que surge.

E surge em um tempo certo.
O tempo que sem perceber desenhamos
Com nossos abandonos; pela nossa ausência da palavra certa.


Patrícia Prado

Divagações


Será que um dia o ser humano compreenderá a dinâmica existencial da vida?

Seres formados por partículas, água, sangue, carne, vida. E uma vida tão ínfima, tão pequena, tão ligeira...

E esse mesmo ser humano finito parece viver como infinito, pois suas escolhas são pontuadas em um futuro que ele pensa ser capaz de dominar. Pobres mortais nós seres humanos!

Somos nada diante do Universo que parece a cada dia se desencantar diante de nós.

Dominamos a máquina, mas não aprendemos a tocar o coração. Temos a técnica que nos aperfeiçoa e nos prepara para a sobrevivência nesse tempo mas, não dominamos a arte de amar sem medo, sem resistência.

E qual o futuro dessa geração de homens e mulheres perdidos em seus espaços cada vez mais seu cada vez menos nosso? Que esperar de seres como nós que se esconde atrás de ideologias e idéias retrogradas e fálidas?

Somos pó e cinza. Somos gente tentando ser gente. Somos criaturas a espera de um criador que nós ensine como ser Ser. Mas essa resposta não virá.

Esse ensino não haverá porque a resposta já está em mim, já está em você, já está em nós e se não a encontramos é porque os muros que fizemos ainda são altos demais para que o eco de nossa alma chegue do outro lado, do lado onde pode surgir vida; do lado onde pode haver paz.


Patrícia Prado

terça-feira, novembro 06, 2012

O dia das palavras mortas

Hoje é o dia.
O dia das palavras mortas.
Palavras ditas e esquecidas.
Mas se foram esquecidas porque se fez um dia?

Hoje é o dia.
De enterrar os restos das palavras que se foram.
Palavras que chegaram mas nunca estiveram presentes.

Hoje é o dia.
De pensar na vida como uma resssurreição
Uma ressurreição para novas palavras, novos pontos, novos encontros.

Hoje é o dia.
De se esquecer e de se lembrar que se deve esquecer.

Patrícia Prado

sábado, maio 12, 2012

Voar... Como se as asas fossem reais e pertencentes a este corpo

Que cansado de tantas idas e vindas
por caminhos que sempre chegam ao mesmo lugar
agora deseja voar.
Voar para ver do alto a estrada, o caminho, uma possibilidade...
E fazer, desta vez, um percurso diferente
Onde pelo menos se tenha a esperança de que o fim não será o mesmo.

        Patrícia Prado
Viver é decidir.
Diariamente decidir.
E decidir não é a ação mais fácil, mais simples, mais clara.
Porque decidir envolve mudança na rota, no corpo, no pensamento, no sentimento.
E nem sempre a mudança é instantânea, é sem dor, é sem dúvida...
E hoje a vida pede decisão.
Hoje a vida chama ao partir...

Patrícia Prado

terça-feira, março 27, 2012

Silenciar. Silêncio.
Eiso o que preciso.
Quando as palavras não dialogam é momento de silenciar
Para ouvir somente a voz do silêncio
Porque nela, na voz do silêncio é possível se ouvir
a resposta à todos os gritos, a todos os ecos, aos sons incompreensíveis, incompreendidos.
Neste tempo eu me proponho silêncio. Proponho silenciar.

Patrícia Prado

terça-feira, março 13, 2012


A cada conflito instaurado vou me descobrindo, modificando, existindo. O outro é um tipo de espelho onde a minha verdadeira face se reflete. É no diálogo, no dia-logo que eu vou me fazendo, refazando. Sozinho eu não existo. Lembra do filme Náufrago? Quando não se tem o outro se inventa o outro. o Sr. Wilson, a bola que se torna gente é um tipo de outro naquele momento solitário.

Patrícia Prado

Instante

Nada do que foi é.

Nada do que é será.

Tudo muda. O tempo todo a mudar.

E a cabeça a girar em um ritmo frenético

Não aguenta tanto mudar.

Mas onde estaria a graça de ser sem ser?

Onde estaria a surpresa se tudo fosse?

E assim, a roda inesperada da vida

Gira, gira, gira

E a girar leva-nos a lugares inóspitos

Onde somente a alma pode prescrutar.

Patrícia Prado

quarta-feira, dezembro 07, 2011


A nudez se manifesta no rosto do outro.

Teu olhar, oceano de possibilidades, leva-me as profundezas do real e do imaginário;

Teus lábios, labirinto onde se esconde segredos desejados, é a mais perfeita personificação da fragilidade e do poder;


Em linhas que surgem a cada novo amanhecer, surge também, uma nova parte de uma história lida por muitos sentida por poucos...


Assim como a brisa toca suavemente uma flor, o tempo o toca e deixa um colorido prata a anunciar outros tantos que chegarão para uma outra festa, uma outra comemoração.


O rosto do outro denuncia a verdade. O tempo. A vida.


É no rosto do outro que vejo a temporalidade. E em teu rosto que eu me vejo...



Patrícia Prado

sábado, setembro 24, 2011

Divagações


A circularidade que estou a viver celebra um tempo mítico. Um tempo que acontece quando se entra no espaço sagrado e tudo é revivido, mesmo que esse fato tenha acontecido em tempos distantes. O sagrado é o sentimento de amor. A celebração acontece no espaço da alma que irradia pelos poros do corpo a excessiva vontade de viver. Viver cada minuto desse tempo sagrado. Viver a simplicidade do viver.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Ame, Ame. Ame....

Para se sentir abraçado, basta continuar abrançando. Para se sentir amado, continue amando. O movimento parte de dentro; parte de nós. A infelicidade muitas vezes persiste porque se espera demais do outro, quando na verdade ninguém pode ser responsável pela feliciade , pela vida de alguém. Chegamos sós. Partiremos sós. Mas antes da partida, há ainda um caminho a se percorrer e nesse percurso há de... se encontrar faces distintas, vozes, silêncio, solidão. E em cada um desses encontros seremos convidados a dialogar com essas facetas que a vida nos revela. E a maneira como construimos nossa identidade será a resposta. Se for uma identidade dependente talvez nunca sentiremos o calor de um abraço; mas se for livre, inteira na realidade, continuaremos abraçando e amando e sendo e vivendo com ou sem o outro. Seremos.

Patrícia Prado

sexta-feira, outubro 15, 2010

Fragmentos


O que eu sou? O que é você? O que somos nós?
Uma pergunta filosófica? Uma pergunta Teológica?
Uma pergunta do Ser.

Ser que procura respostas em mim, em você, em nós.
Ser que se inquieta, que se ressente com as máscaras,
Com as farsas, com a verdade que tentamos velar.

Porque se escondes? Porque me escondo?
Porque nos escondemos?
Revelamos uma imagem abstrata, refletimos uma falácia.

O que quero? O que queres? O que queremos?
A farsa nos afasta
O medo nos protege.

O desejo encoberto em nossa alma
Revela uma verdade que não podemos negar.

O que sou - você o sabe.
O que é você - eu o sei.
O que somos - procuramos conhecer, procuramos saber.

Patrícia Prado

Escrevo

Escrevo
Como quem conta uma história
Para muitos ouvirem
Para ninguém ouvir.

Teço
Nas páginas em branco
Pedaços de sonhos
Que uno a linha da ilusão.

Revelo
Através de um grito no silêncio
Que ecoa de meu ser
Fragmentos de uma alma
Que chora pelo não vivido.

Escrevo, Teço, Revelo
Desejos, Sonhos, Ilusões
Escrevo.

Patrícia Prado

Nalgum Lugar

Poema de E.E. Cummings musicado por Zeca Baleiro, CD Líricas

Nalgum lugar em que eu nunca estive,
alegremente além de qualquer experiência,
teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar
porque estão demasiadamente perto

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,
nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala
como a primavera abre (tocando sutilmente, misteriosamente)
sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e minha vida
nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda parte

Nada que eu possa perceber neste universo
iguala o poder de tua intensa fragilidade:
cuja textura compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre;
só uma parte de mim compreende
que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva tem mãos tão pequenas

segunda-feira, setembro 27, 2010

Porque falar da dor?


Porque falar da dor, se ainda existe amor?
Porque falar dos espinhos, que feriram-me a alma, se ainda há rosas a desabrochar?
Porque amargurar-me em recordações, que de tão saudosas, levam-me ao pranto?
Porque?
Se estamos todos em um grande palco a encenar a vida?

Então, que troquem o figurino!
Hoje o espetáculo é da alegria!
Hoje a palavra de ordem é sonhar, sorrir, viver.
Viver com toda força que ainda existe em mim,
Sorrir como uma criança que se alegra com a simplicidade da vida,
Sonhar com o que ainda é possível de se realizar.

Porque falar da dor, se ainda existe amor?
Porque falar de espinhos, se ainda há rosas?
Porque falar de você, se ainda tenho a alegria de viver?
Patrícia Prado

Além das Flores


Além das flores
Ficam as mãos que a colheram
Fica a terra que recebeu a semente
Fica a vontade de ser.

Além da vida
Fica a vontade escondida
Em folhas amarelas que revelam
Sonhos e ilusões

Além dos sonhos
Fica a esperança de um dia libertar-se
Dos fantasmas que assombram
Que aprisionam
Que colhem a vida.

Patrícia Prado